Cabala

Decima lição sobre a Cabala

  A religião não é uma servidão imposta ao homem, é um auxílio que se lhe oferece. As castas sacerdotais trataram, o tempo todo, de explorar, vender e transformar este auxílio em jugo insuportável; a obra evangélica de Jesus tinha por objeto separar a religião do sacerdote ou pelo menos colocar o sacerdote na posição de ministro ou servidor da religião,  dando a consciência do homem toda a liberdade e razão. Vede a parábola do bom samaritano e estes preciosos textos: ” A lei se fez para o homem e não o homem para a lei. Desgraçados aqueles que preendem e impõe, sobre as espáduas dos outros, fardos que gostariam de tocar apenas com a ponta dos dedos, etc.,etc.” A igreja oficial declara-se infalível no Apocalipse, a chave cabalística dos evangelhos, e há  no cristianismo, sempre, uma igreja oculta ou jvanuita que, respeitando totalmente a necessidade da igreja oficial, conserva do dogmauma interpretação diferente da que lhe dá o vulgo.

  Os Templários, os Rosa-Cruzes, os Franco- Maçons de alto graupertenceram todos antes da revolução francesa, à igreja, da qual Martinez Pasqualy, Saint Martin e até  Mme. de Krudemer foram os apóstolos no século XVIII.

  O caráter distintivo desta escola é evitar a publicidade e não se constituir, nunca , em seita dissidente. O conde José de Maistre, esse católico tão radical, era, ainda que não se acredite, simpático à sociedade dos Martinistas e anunciava uma regeneração próxima do dogma por luzes que emanavam dos santuários do ocultismo. Existem todavia sacerdotes fervorosos que estão iniciados nas doutrinas antigas, e um bispo, entre outros, falecido recentemente , pediu-me que lhe ensinasse Cabala. Os discípulos de Saint Martin tomaram o pseudônimo de filósofos desconhecidos, e os discípulos de um mestre moderno muito conhecido não tiveram necessidade de tomar nome algum, pois o mundo não suspeitava da existência deles. Jesus disse que a levedura deve ocultar-se no fundo da vasilha que contém a massa para trabalhar dia e noite em silêncio até que a fermentação invada lentamente toda a massa que deve formar o pão.

  Um iniciado pode, com simplicidade e sinceridade, praticar a religião em que haja nascido, porque todos os ritos representam diversamente um único e mesmo dogma; porém não deve abrir o fundo de sua consciência mais que Deus e ninguém deve saber suas crenças mais íntimas. O sacerdote não pode julgar o que o próprio Papa não compreende. Os signos exteriores do iniciado são a modesta ciência, a filantropia sem ruído, a igualdade de carater e a mais inalterável bondade.

  Vosso na Sagrada Ciência

Cartas de Eliphas Levi, extraído de As Origens da Cabala; pag. 129, Ed. Pensamento.

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Cabala

Cabala

Nona Lição sobre a Cabala

  Se o dogma cristão- católico é completamente cabalístico, deva-se dizer o mesmo  dos grandes santuários do  mundo antigo. A lenda de Krishina, tal como relata o Bhagavadam, é um verdadeiro Evangelho, similar ao católico, porém mais ingênuo e brilhante. As encarnações de Vishnu são dez,  como os Sefiroths da Cabala e formam uma revelação, de certo modo mais completa que a católica. Osíris, morto por Tífon, depois ressucitado por Ísis, é o Cristo renegado pelos judeus, depois glorificado na pessoa de sua mãe. A Tebaida é a grande epopéia religiosa que deve ser colocada ao lado do grande símbolo de Prometeu. Antígona é o tipo de mulher divina,  tão pura quanto Maria. Em todas as partes o bem triumfa pelo sacrifício voluntário, após ter sofrido por um tempo os assaltos desiguais da força fatal. Os próprios ritos são simbólicos e se transmitem de religião para religião. As tiaras, as mitras, as sobrepelizes figuram em todas as grandes religiões. Depois se deduziu que todas eram falsas, quando, em verdade, falsa é a conclusão. A verdade é que a religião é una com a própria humanidade, progressiva como ela e permanecendo sempre a mesma, tranformando-se continuamente. Se, para os egípcios, Jesus Cristo se denomina Osíris, para os escandinávos Osíris é Balder, morto pelo lobo Jeuris, mas Voda ou Odin lhe devolve a vida e as Valkírias servem-lhe hidromel no Valhala. Menestréis, druidas, bardos, cantavam a morte e ressurreição de Tarenis ou Tatenus, distribuíam a seus fiéis o agárico sagrado, como nós fazemos com o buxo bendito nas festas de solstício de estio, e rendiam culto a virgindade, inspirado nas sacerdotisas da ilha de Seyne.

  Podemos, portanto, em plena consciência e com inteira razão, cumprir os deveres que nos impõe nossa religião materna. As práticas são atos coletivos e repetidos com intenção direta e perseverante. Semelhantes atos são sempre benéficos e fortificam a vontade, espécie de gimnasia que nos conduz ao fim espiritual que queiramos alcançar. As práticas mágicas e os passes  magnéticos não tem outro objetivoe dão resultados análogos aos das práticas religiosas, ainda que sejam mais imperfeitos. Quantos homens não tem a energia para fazer o que desejam ou devem fazer? Há mulheres que se consagram sem desencorajar-se a trabalhos tão repugnantes e penosos como os das enfermeiras e educadoras. De onde tiram essa força? Das pequenas práticas repetidas: rezam todos os dias seus ofícios e seus rosários, fazendo um exame particular.

  Vosso na Sagrada Ciência.

Cartas de Eliphas Levi, extraído de: As Origens da Cabala, Pag. 127, Ed. Pensamento

Cabala

Cabala

Oitava lição sobre a Cabala 

  A ciência da Cabala impossibilita toda dúvida relativa à religião, por ser ela a única que concilia a razão com a fé, mostrando que o dogma universal formulado de maneiras diversas, porém no fundo sempre o mesmo, é a expressão mais pura das aspirações do espírito humano iluminado pela fé necessária. Clarifica a utilidade das práticas religiosas que concentram a atenção e fortificam a vontade. Prova que o mais eficaz dos cultos é aquele que aproxima,  de certo modo, a divindade do homem, permitindo-lhe vê-lo, tocá-lo e, de certa forma , incorporá-lo. É suficiente dizer que se trata da religião católica.

  Esta religião , tal como se apresenta ao vulgo, é a mais absurda de todas, por ser a mais bem revelada de todas; emprego esta palavra em sua verdadeira acepção: revelare ; velar de novo. Sabeis que no Evangelho se diz que na morte de Cristo o véu do templo se rasgou por completo; bem, todo trabalho dogmatico da igreja, através das idades, foi de tecer e bordar um novo véu.

  É verdade que os próprios chefes do santuário, por haverem desejado ser príncipes, perderam há muito tempo as chaves da elevada iniciação. Isto não impede que a letra do dogma seja sagrada e os sacramentos eficazes. O culto cristão católico é a alta magia regulada e organizada pelo simbolismo e a hierárquia. É uma combinação de auxílios oferecidos à debilidade humana para afirmar sua vontade no bem.

  Nada foi esquecido, nem o templo misterioso e sombrio nem o incenso que tranquiliza e exalta ao mesmo tempo, nem os cantos prolongados e monótonos que colocam o cérebro em um semi-sonambulismo. O dogma, cujas formas obscuras parecem o desespero da razão, serve de barreiras às petulâncias de um crítico inexperiente e indiscreto. Parecem insondáveis, afim de melhor representarem o infinito. Os próprios ofícios, celebrados numa lingua que a massa popular não entende, preenchem o pensamento daquele que ora e o deixam encontrar na oração tudo o que está em relação com as necessidades do espírito e do coração. Eis aí porque a igreja católica se assemelha à ave fênix da fábula que renasce continuamente de suas cinzas. E esse grande mistério da fé é simplismente o mistério da natureza.

  Pode parecer um paradoxo dizer-se que a religião católica é a única que poderia chamar-se natural e , portanto, verdadeira; todavia é a única que satisfaz a necessidade natural dos homens.

  Vosso na Sagrada Ciência.

Cartas de Eliphas Levi; extraído de:  As Origens da Cabala , pag 125, Ed. Pensamento.

Cabala

Sétima lição da Cabala

A Cabala IV

Court de Gebelin vislumbrou, nas vinte e duas chaves do Tarô, a representação dos mistérios egípcios, atribuindo sua invenção a Hermes ou Mercúrio Trismegistos, que foi chamado também Thaut ou Thoth. É certo que os hieróglifos do Tarô se encontram nos antigos monumentos do Egito; é certo que os signos deste livro, traçados em quadros sinóticos ou em tabelas ou lâminas metálicas, assemelham-se às inscrições isíacas de Bembo, reproduzidas separadamente em pedras gravadas ou medalhas, convertidas posteriormente em amuletos e talismãs. Assim se separavam as paginas do livro, infinito em suas combinações diversas para reuni-las, transporta-las e dispô-las de um modo sempre original, obtendo múltiplos oráculos da verdade.
Possuo um destes antigos talismãs , trazido do Egito por um viajante amigo. Representa o binário dos Ciclos ou, vulgarmente, o “dois de ouros”. É a expressão figurada da grande lei da polarização e do equilíbrio, produzindo a harmonia pela analogia dos contrários. A medalha um pouco apagada é do tamanho de uma moeda de prata de cinco francos, porém mais grossa. Os dois ciclos polares estão representados exatamente como no nosso Tarô italiano, por uma flor de Lotus, com uma auréola ou nimbo.
A corrente astral que separa e atrai ao mesmo tempo os dois focos polares está representada em nosso talismã egípcio pelo Bode de Mendes, colocado entre duas víboras, análogas às serpentes do caduceu. No reverso da medalha , vê-se um adepto ou um sacerdote egípcio que, substituindo Mendes entre od dois ciclos do equilíbrio universal, conduz por uma avenida ladeada de árvores o bode transformado num animal dócil pela ação da vara mágica.
Os dez primeiros números, as vinte duas letras do alfabeto e os quatro signos astronômicos resumem toda a Cabala.
Vinte e duas letras e dez números somam as trinta e duas vias do Sepher Jetzirah, quatro representam a mercavah e o shemanphorah.
É simples como um jogo de crianças e complicado como os mais árduos problemas das matemáticas superiores.
É ingênuo e profundo como a verdade e a natureza.
Esses quatro signos elementares e astronômicos são as quatro formas da esfinge e os quatro animais de Ezequiel e S. João.
Vosso na Sagrada Ciência.

(Cartas de Eliphas Levi, As Origens da Cabala, pag.123, Ed. Pensamento)

Cabala

Sexta lição da Cabala
Cabala
III

A bíblia deu ao homem dois nomes. O primeiro é Adão, que significa saído da terra ou homem da terra; o segundo é Enos ou Henoch, que significa homem divino ou elevado até Deus. Segundo o Gênese, Enos foi o primeiro que dedicou homenagens públicas ao princípio dos seres, o qual, segundo se diz, foi elevado aos céus, depois de ter gravado em duas pedras que se denominam as colunas de Henoch os elementos primitivos da religião e da ciência universal.
Henoch não é um personagem, mas uma personificação da humanidade, eleva os sentimentos da imortalidade pela religião e ciência. Na época designada com o nome de Enos ou Henoch, apareceu o culto de Deus representado no sacerdote. Na mesma época começa a civilização com a escritura e os monumentos hieráticos.
O gênio civilizador que os hebreus personificavam em Henoch foi chamado Trismegistos pelos Egípcios, Kadmos ou Cadmus pelos Gregos. Foi Cadmus que viu, aos acordes da lira de Anfion, elevarem-se as pedras vivas de Tebas.
O primitivo livro sagrado, o livro que Postel chamou Gênese de Henoch, é a primeira fonte da Cabala, ou tradição divina, humana e religiosa. Nele, a tradição aparece em sua nobre simplicidade, cativando o coração do homem, bem como a lei eterna regulando a expansão infinita, os números na imensidade e a imensidade nos números, a poesia nas matemáticas e as matemáticas na poesia.
Quem acreditaria que o livro inspirador de todas as teorias e símbolos religiosos foi conservado até nossos dias sob a forma de um jogo de cartas? Não obstante, nada é mais evidente; e Court de Gebelin foi o primeiro a descobri-lo.
O alfabeto e os dez números- isto é, certamente, o mais elementar da ciência. Reuni a isso os signos dos quatro pontos cardeais ou das quatro estações e tereis completado o livro de Henoch. Cada signo representa uma idéia absoluta ou, se preferis, essencial.
A forma de cada cifra ou de cada letra tem sua razão matemática e significação hieroglífica.
As idéias, inseparáveis dos números, seguem, adicionando-se, dividindo-se ou multiplicando-se, etc., o movimento dos números, e adquirem a exatidão. O Livro de Henoch é, enfim, a aritmética do pensamento.
Vosso na santa ciência.
(cartas de Eliphas Levi, As Origens da Cabala, pag. 121. Ed. Pensamento)

Cabala

Quinta lição da Cabala

A Cabala II

Este conhecimento racional da divindade, escalonado nas dez cifras que compõe os números, vos oferece o método completo da filosofia cabalística. O método compõe-se de trinta e dois meios ou instrumentos de conhecimento, que se denominam as trinta e duas vias, e de cinqüenta objetos, aos quais pode-se aplicar a ciência, e que se chamam as cinqüenta portas.
A ciência sintética universal considera-se como um templo com trinta e duas vias de acesso e cinqüenta portas.
Esse sistema numérico, que também poderia ser chamado decimal, porque sua base é dez, estabelece, por analogias, uma classificação exata de todos os conhecimentos humanos. Nada é mais engenhoso, lógico e exato.
O número dez, aplicado às noções absolutas do ser na ordem divina, metafísica e natural, repete-se três vezes, o que dá trinta para os meios de análise; acrescentai a sílépse e a síntese, a unidade postulada pelo espírito, e a do resumo universal, e tereis as trinta e duas vias.
As cinqüenta portas constituem uma classificação dos seres em cinco séries de dez, que abraça todos os conhecimentos possíveis.
Porém não basta ter encontrado um método matemático exato, é preciso, para ser perfeito, que esse método seja progressivamente revelador, isto é, que nos dê o meio de obter com exatidão todas as deduções possíveis, de obter os conhecimentos novos e de desenvolver o espírito, sem deixar nada ao capricho da imaginação.
Isto é o que se obtém pela Gematria e a Temura que são as matemáticas das idéias. A Cabala tem sua geometria ideal, sua álgebra filosófica e sua trigonometria analógica. É desta forma que obriga a natureza, de certo modo, a revelar seus segredos.
Adquiridos estes altos conhecimentos, passa-se às últimas revelações da Cabala transcendental e estuda-se chemanphorach, a fonte e a razão de todos os dogmas.
Eis aí senhor e amigo, o que se deve aprender. Vede se não vos assusta; minhas cartas são curtas, porém são resumos muito completos e que expressam muito em poucas palavras. Dei espaço, amplo o bastante, entre minhas primeiras cinco lições, para vos dar tempo de refletir; posso, portanto, escrever-vos mais amiúde se o desejardes.
Acreditai-me desejoso de vos ser útil.
Vosso, de todo coração, na Sagrada Ciência.

(cartas de Eliphas Levi, As Origens da Cabala, pag. 119, Ed. Pensamento)

Cabala

Quarta lição

A Cabala

Bereshith quer dizer gênese; Mercavah significa “carrinho” em alusão às rodas e aos animais misteriosos de Ezequiel.
Bereshith e Mercavah resumem a ciência de Deus e do mundo.
Digo “ciência de Deus” e, portanto Deus não é infinitamente desconhecido. Sua natureza escapa
completamente as nossas investigações. Princípio absoluto do ser e dos seres, não pode ser confundido com os efeitos que produz e pode-se dizer, afirmando completamente sua existência, que não é nem o não-ser, nem o ser. Fato que confunde a razão sem extraviá-la e nos afasta completamente da idolatria.
Deus é o único postulatum absoluto de toda ciência, a hipótese necessária que serve de base à certeza. Eis aqui como nossos antigos mestres estabeleceram cientificamente esta hipótese correta de fé: O Ser é. No ser está a vida. A vida manifesta-se pelo movimento. O movimento perpetua-se pelo equilíbrio das forças. O harmonia resulta da analogia dos contrários.
Existe, na natureza, lei imutável e progresso indefinido, mudança perpétua nas formas, indestrutibilidade da substância; e isto é o que se encontra estudando o mundo físico.
A metafísica apresenta leis e fatos análogos, na ordem intelectual ou na moral, o verdadeiro, imutável, de um lado, do outro, a fantasia e a ficção. De um lado, o bem que é verdadeiro; do outro, o mal que é falso, e desses conflitos aparentes surgem o juízo e a virtude. A virtude compõe-se de bondade e justiça.Boa, a virtude é indulgente. Justa, é rigorosa. Boa porque é justa e justa porque é boa, mostra-se bela.
Esta harmonia entre o mundo físico e o mundo moral, não podendo ter uma causa superior a si própria, revela-nos a existência de uma sabedoria imutável, princípios e leis eternas e de inteligência infinitamente criativa. Sobre esta sabedoria e inteligência inseparáveis repousa a potência suprema que os hebreus chamam coroa. A coroa e não o rei, porque a idéia de um rei implicaria a de ídolo. A potência suprema é, para os cabalistas, a coroa do universo, e a criação inteira é o reino da coroa ou, mais precisamente, o domínio da coroa.
Ninguém pode dar o que não tem e virtualmente podemos admitir na causa o que se manifesta nos efeitos.
Deus é, portanto, a potência ou coroa suprema (Kether), que repousa sobre a sabedoria imutável (chockmah) e a inteligência criativa (binah); nele estão a bondade (chesed) e a justiça (geburah), que são o ideal da beleza (tiphereth) . Nele estão o movimento sempre vitorioso (netzach) e o grande repouso eterno. Sua vontade é uma criação contínua (iesod) e seu reino (malkuth) é a imensidade que povoa o universo.
Detenhamo-nos aqui; conhecemos a Deus!
Vosso na Sagrada Ciência.

(Cartas de Eliphas Levi, As Origens da Cabala, pag 117, Ed. Pensamento)